Sim eu sei, este assunto é um tanto clichê, afinal é sabido que muitos (as) intercambistas que vem para a Irlanda acabam trabalhando como garçom, como Rickshaw (são todos muito esforçados, mas estes são campeões, na minha opinião, é claro! São aqueles carinhas e garotas que fazem das bikes um taxi transportando passageiros pelas ruas de Dublin no frio que for, debaixo de chuva, ou em qualquer outra condição… são muitos desafios), entre outros.
Aqui em Bundoran tenho alguns amigos que trabalham como Kitchen Porter (lavando louça em restaurante) o trabalho é tão pesado que eles dão preferência por homens… Em Dublin acho que tem garotas que trabalham nesta área, mas por aqui a oferta é baixa e a procura é alta, então só os meninos mesmo. E vou falar, a mão dos rapazes ficam em carne viva se não usarem luvas… Então não dá para dizer que a vida é fácil, porque não é!

E é normal se perguntar, se é tão sacrificante, tão exaustivo, por que se submetem a isso? Vão morar na Europa e ficam lá “se matando” executando trabalhos braçais, que não os desenvolve profissionalmente…

Cada um tem sua história, mas falando de mim… Me formei como Bacharel em Turismo, alguns anos depois fiz MBA em Liderança e Gestão de Pessoas na Fundação Getúlio Vargas (FGV, uma das instituições mais conceituadas do Brasil), trabalhei nos últimos 6 anos em cargo de liderança…

E pera! Hoje é feliz fazendo trabalho braçal? Feliz limpando quartos e banheiros?

Pois é, a vida é engraçada… Preciso dizer que a cada dia que passa, esta experiência de morar fora do meu país de origem, longe da minha família e amigos, sem estabilidade ou segurança financeira, sem zona de conforto, onde você aprende a valorizar detalhes que antes achava que eram trabalhosos demais, como fazer limpeza, por exemplo, ou trabalhar em um domingo de sol, também me lembro a tortura que era sair para a aula em dia frio e com chuva. Já hoje? Hahaha…

É assim com tudo,  conforme falamos em Vida de Intercambista, sua vida muda, seus conceitos mudam, e você flexibiliza, aprende a valorizar as horas de trabalho como horas de ouro! Afinal elas que te pagarão as compras do mercado com tranquilidade, que patrocinarão as suas viagens, entre outros.
É uma delícia receber aquela mensagem perguntando se você está disponível para o trabalho! Ô momento feliz! Largo tudo! Vou lá garantir a entrada dos meus euricos.

E quanto ganha uma Cleaner, para te deixar tão feliz assim Clarissa? Vocês devem estar se perguntando… Isso depende! Já vi gente receber 9,40 a hora. Mas eu mesma geralmente recebo 10 euros a hora. Considerando que meu custo de vida (em Bundoran e com economia) não passa de 400 euros por mês, não é difícil entender a felicidade da pessoa aqui né?
São poucas horas de trabalho para bancar seus custos, sua experiência internacional e te ajuda no aprendizado (sim, meu inglês precisa de muita evolução, mas nestes 3 meses que estou aqui já me desenvolvi muito e o trabalho ajuda demais no aprendizado, afinal sua imersão na língua é de 100% e você precisa entender os comandos).

Se antes no Brasil minha carga horária era de 44 horas semanais (sem hora extra) e o custo de vida era tão alto, mesmo para uma vida simples sem luxo ou regalias, e quase nenhuma viagem, todas as contas eram apertadas e sempre com a preocupação de ter de fazer mais dinheiro, pois não estava sobrando para guardar, para viajar, para investir… E não, não tinha um super salário, mas também não era dos mais baixos. O custo de vida que é alto mesmo.

No MBA estudei muito sobre doença no trabalho…
Profissionais com inúmeras situações complicadas no trabalho (infelizmente a doença proveniente ao stress no trabalho cresce assustadoramente), stress com o trânsito caótico e dificuldade com transporte público… Enfim, com seu estilo de vida, com suas escolhas que claro, são baseadas em suas necessidades primárias de “sobrevivência” própria e da família.

E a imersão nestes estudos, sobre saúde no trabalho me chocaram muito, afinal, era eu uma Workaholic (vivia para o trabalho, queria trabalhar todos os finais de semana para ganhar Hora Extra, além das Horas Extras da semana e já tendo uma carga horária alta). Eu que desde que comecei a trabalhar passei a perder os eventos de família, a não viajar com os amigos nos finais de semana e feriados porque estava trabalhando… E sabe como é vida de lojista… Saí dos shoppings para empresas e não mudou muita coisa… Por isso digo, aqui estou apenas compartilhando minha experiência, que não é igual a sua, pois cada pessoa tem suas limitações, vontades, expectativas e possibilidades.
E eu sei, mudar é difícil! Mas para mim, concluí, que seria mais difícil não mudar pois a situação não era satisfatória, percebi que o status social não traria minha saúde de volta, não me devolveria meus anos investidos e não me realizava. Sobre o assunto mudança, gosto muito da explicação do prof. Mario Sergio Cortella, confira aqui!

cleaner-feliz-clarissa-aleixo

E vou te ser sincera, eu particularmente não quero mais ser feliz aos finais de semana, não quero ser a pessoa que se sente limitada em um ambiente, pois acredita e sente dentro de si que o mundo é maior do que as paredes do escritório, e que todo o dinheiro que eu gasto tentando ter umas horas de relaxamento e felicidade poderiam ser investidos de forma diferente. Para que eu viva feliz de segunda a segunda, que tome chuva e ache graça, que corra de um trabalho para o outro feliz porque terei dois empregos naquele dia.

O trabalho de Cleaner não é ruim, é pesado porque tem de ser rápido, é preciso se adaptar porque no Brasil temos um jeito diferente de limpar e higienizar a casa. Mas é fantástico! Me enche de orgulho por aprender e conseguir fazer bem feito nas características esperadas, por conseguir um trabalho e principalmente quando me chamam de volta! É um certificado de que fiz direito!
Eu limpo o box do banheiro agradecendo por estar ali, por este trabalho ajudar a pagar uma grande experiência para minha vida, minha evolução pessoal e principalmente fico feliz por ter força de vontade e superação suficiente para agarrar a cada oportunidade sem julgamento, sem soberba.

“O universo é uma zona infinita, povoado por energia em trânsito. Logo a vida boa é com energia, com potência de agir. Alegria…”

Clóvis de Barros Filho

Aquele sentimento de que você se dará bem em qualquer lugar do mundo por onde se proponha ir, ah, isso não tem preço! Até costumo usar a expressão “nós intercambistas somos como gatos, podemos cair de qualquer telhado, mas cairemos de pé!”.
Você se vira, não tem frescura, porque o objetivo maior está sendo realizado! No Brasil existe um estigma forte com relação a cargo, posição social… O professor de uma escola particular não lavará a louça do café servido no intervalo e o CEO de uma grande empresa mal olha no rosto do faxineiro…
E quer saber, aqui na Irlanda aprendi a lavar a louça junto com minha professora para ajudá-la, aprendi que sou ótima com crianças trabalhando como babá. Que consigo ser ágil e me adaptar ao modo de faxina diferente do que fiz a vida inteira. Aprendi que a humildade é muito linda! Vejo minha amiga que mora em Amsterdã, ex-advogada de uma grande empresa, saiu pelo mundo a alguns anos acumulando experiências, crescendo e aprendendo a viver um pouco mais em cada dia. Autora do blog Vida Linda, ela trabalha fazendo entrega de bicicleta pelas belas ruas holandesas no frio que for. E vai feliz!
Vejo o Rodrigo Sanchez, concursado no Brasil, deixou um trabalho administrativo literalmente confortável e até outro dia trabalhava lavando louça em um hotel de luxo (o tal Kitchen Porter que falei lá no início do texto), hoje quem está em seu lugar é outro amigo nosso que era gerente de loja de uma grande marca no Paraná (hoje o Rodrigo é repositor de produtos no mercado).

E isso é o começo, nós batemos no peito e falamos com orgulho das nossas experiências porque são motivadoras o suficiente para sabermos que somos mais do que achávamos ser. Nos descobrimos fortes, resilientes, exploratórios e curiosos do mundo. Que esta é nossa primeira etapa para passos maiores pois, nosso inglês ainda não é fluente.
São os primeiros passos, seja para continuar viajando pelo mundo, seja para juntar dinheiro e abrir seu próprio negócio, seja para o que for. Se você se dá bem como imigrante, aprende, se permite mudar e crescer. Ah, você se dará bem em qualquer lugar!

E com isso posso dizer, que hoje, trabalhando como Cleaner, vivo uma das maiores experiências da minha vida e sou plenamente feliz!

Siga seu caminho, abra suas asas, permita-se ser quem você deseja ser.
Só não seja infeliz!
Acredite em seus sonhos. Deposite neles esforço e coragem, a Estrada é longa mas o sucesso é garantido!

Te vejo por aí!

Abraços,

Clarissa Aleixo

 

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